A cultura de nunca dizer “não”

Para começar o assunto de maneira mais interativa, levante a mão quem nunca passou por uma destas situações:

1) Pessoa chega na sua casa, pega seu livro novinho que você acabou de ler e pergunta: “Posso pegar emprestado? Te devolvo mês que vem”. Daí ela abre a mochila toda bagunçada com cara de vou-amassar-e-fazer-orelhas-no-seu-livro-todo. Você queria dizer: “não”, mas você diz “ainda estou lendo, estou no capítulo 2 e vou levar 5 anos pra terminar”.

2) Colega de trabalho que você chama de Má e não lembra se o nome dele é Má de Márcio, Marcelo ou Marcos, mas chama de Má porque todo mundo o chama assim, chega pra você e fala: “você acabou de comprar um PS4? Vou passar na sua casa e jogar por horas e daí vou pegar uns jogos seus emprestados”. Você queria dizer: “não, não temos esta intimidade toda”. Você diz: “o video-game nem chegou em casa, minha casa ficará sem energia até outubro (estamos em fevereiro) e minha TV é de tubo, nem dá pra instalar o Play”.

3) Um amigo estaciona o carro zero na frente da sua casa, mostra a camiseta escrito “I❤ NY" da última viagem, atende o iPhone 6 plus de 64 GB e pede R$200 emprestado pra você pra poder pagar a conta de energia elétrica da casa dele porque tá sem grana, a situação no país está difícil. Você, com quatro notas de R$50 na mão, queria falar "não, vende teu iPhone, estuda tuas prioridades e acorda pra vida", mas você diz:"puxa, estes R$200 na minha mão nem são meus! São quatro doações de 50, uma pro abrigo de animais, uma pro hospital do câncer, uma pro hospital infantil e uma pra… pra… promessa que eu fiz em Aparecida do Norte!".

4) Colega viaja com você a trabalho no exterior, compra 40 perfumes, 35 desodorantes, 90 peças de roupa, 41 sapatos e 67 eletrônicos, compra mais 4 malas pra levar tudo, e pra escapar da alfândega, pede pra você levar a mala dela. Você queria dizer: "não. Você não precisava de tudo isso, quantos sovacos você tem pra levar 35 desodorantes?! Podia ter comprado só o que queria ou precisava mais. Agora se vira na alfândega", mas você diz "ai, amiga, não dá! Fui na cartomante e ela disse que se eu trouxesse mais que as minhas duas malas, o avião cairia, eu não sobreviveria e não achariam nem meu corpo e nem a caixa preta! Desculpa!".

Eu poderia citar mais umas 30 situações que, com exageros e toques de humor a parte, você já deve ter passado em algum momento. A questão aqui é: por que é que, na nossa cultura, não se pode dizer "NÃO"?

Vivemos numa cultura que é muito aconchegante, mais do que em qualquer país que já visitei. As pessoas se gostam, as pessoas viram amigas muito rapidamente e ficam próximas mesmo. Você entra em uma empresa com 30 pessoas na segunda-feira e na sexta-feira você sai para o happy hour com 30 amigos. A palavra "colega" (de trabalho ou escola) foi aposentada e só serve para momentos de ironia, tipo "qual é o seu problema, colega?". Parece que quando você chama alguém de colega, no trabalho, você diminuiu a posição automática de "amigo" para "colega", parece que você baixou o nível da amizade de vocês.

Inicialmente, esta abertura e amizade toda é muito legal. Você se sente em casa rápido e todos são muito abertos para novas amizades e experiências. O problema é a baixa tolerância com a palavra "não" e com feedback que a maioria das pessoas tem. Quando você conhece pessoas novas, e com o aumento da intimidade, você pode e deve estar mais receptivo a aceitar feedback e, consequentemente, dar sua opinião. Isto é um processo natural que sempre visa o amadurecimento e aprendizado do outro. É aí que começa este processo de querer ser simpático, acabar mentindo, e no final você sai de mentiroso e a outra pessoa sai sem aprender a lição. Ambos os lados perdem, pois um devia zelar pelo outro.

Pelas minhas observações, as pessoas levam o "não" muito a sério. Dizer "não" para uma situação fere o orgulho de alguns, outros não esquecem isso por muito tempo ou ficam sem falar com você. Parece que as pessoas exigem que você cuide delas. Tente NÃO emprestar dinheiro a alguém que não seja um amigo muito próximo, ou NÃO querer ir a uma festa ou balada e ser muito sincero sobre o motivo (não gostar daquela balada, por exemplo). Os comentários geralmente são ruins, isso se não te chamarem de "grosseiro" por ser direto demais. Mas por que as pessoas não podem 'não' querer fazer algo? A cultura da simpatia acaba virando a cultura da mentirinha, do "passa lá em casa" quando na verdade você não quer que a outra pessoa vá te visitar, do "conta comigo" quando você vai evitar a pessoa se sabe que ela precisa de ajuda. Se não tivermos cuidado, a simpatia pode virar hipocrisia.

O problema de não dizer 'não' aumenta quando isso vira medo de dar feedback ou opinião negativa. Quando alguém pergunta se você vai votar no partido dele e você não quer dizer que NÃO, e joga um "o voto é secreto", ou quando alguém pergunta se o trabalho que fizeram ficou bom, e ao invés de ser honesto e dizer "não, mas eu te ajudo a melhorar", você joga um "poderia estar melhor". Um trabalho nota 8 poderia estar melhor, poderia ser 10, e com essa resposta vaga e generalizada, a outra pessoa não se esforça para melhorar pois acredita que esteja passável. Tudo vira uma bola de neve: você não quer trabalhar com um colega de trabalho porque ele trabalha mal e você não fala isso pra ele; ele não sabe disso e não melhora; ele é demitido por "corte de gastos ou de pessoal" sem uma explicação justa para que ele entenda que tem que melhorar, aquela estorinha do "você é ótimo! Adoramos você! Mas você foi demitido"; e por aí vai. Ao invés de ter bons amigos, muitos têm "amigos de fazer média".

É verdade que ouvir o que precisa ser dito às vezes dói – e algumas vezes, quem está falando a verdade está mais preocupada em machucar do que realmente ensinar algo – mas é um processo que todos devem passar. É claro que as pessoas precisam ser mais sinceras com elas mesmas, e depois com as outras. Será que você está fazendo o seu melhor? Será que dá para melhorar? Pense antes de dar a resposta. Ninguém é tão bom que não precise melhorar.

O processo de aceitar opiniões é simples, e precisa ser praticado. Vamos destrinchar o processo um pouco:

1) primeiramente, ouça, mas realmente ouça com atenção ao que o outro está dizendo. Pode até parecer absurdo no início, como quando alguém diz "nossa, que egoísta você é!" sendo que você gasta os R$200 reais mensais só com contribuições de caridade. Mas será que não tem algum fundo de verdade? Será que você não ajuda estas instituições por reconhecimento e auto-promoção?
2) sempre assuma que a pessoa tem uma boa intenção ao te dar feedback. As pessoas não conseguem adivinhar as intenções umas das outras, mas elas podem dizer quais foram os efeitos das suas ações sobre elas, e é aí que você pode estar errando e atingindo os outros. Você pode ter boas intenções, mas estar magoando alguém, por isso, pense que esta pessoa está fazendo isso para o seu bem e ouça o que ela tem para dizer. Mesmo que pareça que ela só quer te machucar, pense que ela tem uma boa intenção com isto.
3) é importante repetir o que foi dito para certificar que você entendeu tudo e, honestamente, agradecer o feedback. Não é fácil falar com outra pessoa para dizer o que ela faz de errado, agradeça o fato deste amigo ter te encarado para te dar a real na lata. Muita gente pratica no espelho ou mentalmente antes de falar com você, e falam com você para que você não "aprenda batendo a cara na parede da realidade". E isto é uma ajuda mais valiosa que os R$200 do exemplo anterior.
4) engula o sapo, é importante fazer isso. Pense em quais momentos isto pode ter acontecido, tente entender o por quê desta interpretação e se você machucou a pessoa sem saber ou sem intenção, peça desculpas. Humildade para reconhecer o erro é sinal de inteligência.
5) você pode até justificar o que fez, mas nunca responda na hora ou retruque com um erro da outra pessoa. Você estará com o sangue quente e se mostrará fechado para feedbacks futuros.
6) coloque contexto nas suas justificativas. Elas podem fazer a diferença para explicar o motivo de algo ter saído errado, mas ao mesmo tempo, não jogue a culpa nelas. Por exemplo, conversar com alguém e ser grosso logo após de receber uma má notícia explica parte do seu comportamento, mas não o justifica.

É um processo difícil, e mesmo acostumado com ele, você pode acabar errando, pois dependendo de como o feedback for dado, ele fere os seus sentimentos e auto-estima. Se isto acontecer, tente pedir calma para a pessoa que está falando com você.

Se unirmos a cultura da abertura para novas amizades com a cultura de aceitar melhor opiniões contrárias, podemos ter uma sociedade mais unida e honesta. Uma sociedade em que as pessoas aprendem umas com as outras, em que há mais tolerância, e na qual as pessoas aprendem com experiências reais, e não apenas com curtidas e compartilhamentos de textos em mídias sociais.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • Minha Vida Antes dos 30 em números

    • 25,917 acessos
%d blogueiros gostam disto: