Ser cafajeste está na moda

É cada vez mais comum meus amigos virem reclamar de seus namoros que não deram certo. Infelizmente, as pessoas precisam entender que namoro não dar certo é a regra, você casa com a exceção, por isso que aquela pessoa é a “única na sua vida”. No começo, você idealiza uma pessoa perfeita para você, como se você estivesse numa daquelas sorveterias self-service. Você escolhe o formato da casquinha, o sabor, a cobertura, os confeitos, até a cor da colherzinha plástica. Depois, você termina de comer e pensa “essas amoras por cima não ficaram legais” e na próxima você corrige. É assim que idealizamos o par perfeito, como em um jogo do The Sims ou RPG. Você escolhe a altura, a cor dos cabelos, dos olhos, o peso, gostos musicais, cinematográficos e culinários. Depois você sai pelo mundo procurando a pessoa que mais se encaixa nestes quesitos. É aí que o problema começa.

O problema não é “ser difícil de encontrar” a pessoa. O problema é que você acha a pessoa ou alguém muito similar, talvez por um lost in translation do Criador quanto aos seus pedidos. E como geralmente todos colocam os melhores atributos e idealizam um super-namorado, estas pessoas resolvidas, inteligentes e de bem com a vida costumam ter o que este século entende como um defeito de fábrica: eles simplificam as coisas e não são cafajestes. Se você chama para sair, eles aceitam; se você vai visitar, ganha chocolates; se vão a um jantar, ele paga, etc. Parece perfeito, e pouco depois, a magia acaba. “Você é uma pessoa incrível, inteligente, legal, descolada, independente, mas…” – aí esse “mas” pode ter uma resposta sem nexo, ou aqueles olhares que avaliam tudo o que tem na sala para ver o que pode servir como desculpa. Vai que ele gosta de sertanejo? Ou comprou algum livro de auto-ajuda? Esta é a hora de criar uma desculpa para largar e para encarar a verdade: ele não é cafajeste, e ser cafajeste está na moda.

É como dizer “meu, essa Ferrari com Motor V12 de 800 CV aliado a um motor elétrico de 163 CV é o máximo, mas… economiza muito combustível… como vou parar no posto para comprar chiclete?” e larga mão de tudo e compra um popular que vai quebrar na primeira vez que parar num posto com combustível adulterado, enguiçando no meio do trânsito, na pista simples, no horário de pico, chovendo. É muito mais divertido contar o drama de como ele teve que ligar para o guincho, ficou molhado, pegou leptospirose, torceu o tornozelo e teve que pedir empréstimo para pagar o conserto do carro do que dizer “entrei na minha Ferrari e confortavelmente dirigi do Oiapoque ao Chuí se problemas em 6 horas”. Qual é a graça? Cadê as fotos do carro quebrado para compartilharmos nas redes sociais, porque a cada compartilhamento ele ganhará 0,01 centavo para pagar o conserto? Cadê o perigo? Não tem graça. Assim como atualmente não tem graça namorar com alguém certinho e de futuro promissor. Cadê as DRs? Cadê os barracos em público? E as indiretas de Facebook? O que o sujeito vai contar para os amigos na hora de reclamar dos namorados? E o principal, vão acabar com o ditado “pisa que cola, cola que pisa”? Absurdo!

A moda hoje é essa, ser cafajeste filho da mãe, é o que todo mundo quer. Aquele namorado que sai com 10 pessoas ao mesmo tempo sem ela saber, mas termina falando que o problema é a distância. O legal não é ser CEO de empresa, é ser traficante, criminoso, tem até música da Britney Spears falando sobre isso, mas alguém cantou algo do tipo “estou amando uma pessoa bem-sucedida”? Romântico é o amor de bate-e-volta. Ele bate, ela cai longe, e a otária volta aos braços dele, e ele sabe que é assim, porque ele é cafajeste. É como se ter o carro do ano ou a roupa desta estação, não importa se são os melhores, eu quero é esse. E dai vem as reclamações, publicações no Facebook e aquela parafernalha toda.

Se você, assim como eu, é certinho, estuda, se importa com os outros e tal, prepare-se. Este milênio não é o seu, e saiba lidar com isso. O jeito é ter paciência. Hoje, os bem resolvidos e independentes são as loiras, altas e de olhos azuis do tempo em que a interação na internet se baseava nas salas de bate-papo do UOL. Todos querem ser, mas ninguém consegue. Todos querem ter, mas ninguém sabe o que fazer quando se dá de cara com uma na vida real. Daí, as pessoas se casam com um parceiro mais ou menos como elas queriam, para ter uma vidinha mais ou menos, numa casinha mais ou menos, e os sonhos agora são conseguir para todas as contas em dia e talvez, quem sabe, comprar uma TV maior e pagar um pouco a mais para o técnico da TV a cabo e habilitar os canais pornô de graça, porque a pessoa com quem se dorme não é a pessoa que se queria estar na cama.

Em um mundo onde o atraente é ser cafajeste, ficar rico e famoso sem esforço ou estudos é ser heroi e ser magro até morrer de anorexia é bonito, prefiro continuar sendo o deslocado e o marido ideal no futuro distante de outra pessoa deslocada. Tenho todo o tempo do mundo para esperar.

Comments
5 Responses to “Ser cafajeste está na moda”
  1. Fabiano disse:

    Então somos 2 na eterna espera!

  2. Luck disse:

    será que o blog acabou?? O.o

  3. Kamila disse:

    Amei o post! Esperar é realmente uma virtude de poucos, até porque a vida passa muito rápido e temos medo de perder alguma coisa do imediatismo atual! Mas é isso quem espera sempre alcança!!! Beijos

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