Muito barulho, pouca verdade

Sempre que uma rede social começa a se popularizar, vêm as frases e mensagens que as pessoas usam tentando fixar uma imagem ou causar um efeito. Não é de hoje que isso acontece, antes das redes sociais, existiam as camisetas, cadernos, adesivos no carro, pulseiras de silicone com frases no pulso, vinte chaveiros com ícones ou mensagens para segurar uma chave e aquelas coisas todas que fazem com que as pessoas tentem expressar suas personalidades. É difícil, mas é a atual realidade entrar no Facebook e ser inundado de frases absurdas, exageradas e extremamente imperativas postadas pelos nossos contatos. O pior é conhecer a pessoa e saber que ela não segue aquilo que escreve. O tímido escreve “eu faço acontecer”, a estúpida escreve “ou é do meu jeito ou não é”, o corno escreve “estou melhor sem você” e a burra escreve qualquer coisa, mas sem vírgula nem acento, então eu não entendo nada do que ela escreve. As pessoas não leem os livros, mas colocam as frases que acharam mais marcantes neles, isso quando acertam o autor, ou então sai algo como “ser ou não ser, eis a questão – Freud”. Aí começamos a nos indagar sobre a real utilidades destes sites.

Existem várias coisas que me fazem pensar duas vezes antes de acessar essas redes, como aquelas frases cheias de cobranças, principalmente quando a pessoa não tem moral para cobrar tudo aquilo. É um tal de “se me quer, fica comigo; olhou pra outra, não me quer mais; se quiser, faça você; se quer chegar lá, corra atrás; se for gostar de mim, que seja para sempre; querer é poder; etc”. Tudo isso só faz sentido porque a pessoa que escreveu isso não erra: quando gosta de alguém é para sempre, não existe “ex-namorado”; vai atrás de tudo sempre; quando ela quer, ela faz; quando ela quer, ela pode, etc.. o porquê de ela ainda não ser presidente do país, milionária e ainda morar na zona leste de São Paulo é uma outra frase que alguém precisa postar. As pessoas ficam se repetindo essas frases de super autoconfiança, para tentarem se convencer.

Muitos também gostam de praticar a intolerância nas suas publicações. Todo mundo sabe (ou devia saber) que a vida é um aprendizado, e que não é só porque seu último namorado foi um canalha que todos serão, que namoro nunca leva a nada e por aí vai. Frases como “gostei, me ferrei, fiquei ferido, aprendi, nunca mais” são comuns. Eu queria que quem escrevesse isso fizesse exatamente isso. Não saia com mais ninguém, morra sozinho e lembre-se: VOCÊ escolheu e publicou isso na rede mundial de computadores. Portanto, NÃO reclame de estar sozinho, NÃO torre a paciência de quem resolveu tentar de novo, NÃO acabe com a felicidade alheia no dia dos namorados e NÃO reclame da vida. Tem horas que eu acho que essas sentenças de Facebook deveriam virar testemunhos das pessoas e poder serem usados contra elas no caso de processos. Você publicou, você paga por isso.

Apressadinhos também pagam seus pecados por não manterem a boca fechada online. O namorado não atende o celular, a bonita vai lá e “pra quê celular se você não atende! Você me deve explicações!”. No dia seguinte ela fica sabendo que ele estava com a mãe que estava muito doente no hospital. Também já vi o caso da cidadã que ouviu “conselhos” de um amiga e correu para a internet escrever “enquanto eu ainda corro atrás de você, você fica aí tranquilo. Quero ver a hora que eu parar de correr atrás”. O namoro ia muito bem, não tinha nada de “correr atrás” (ela só era a que ligava mais ou mandava mais mensagens para ele), ele “não curtiu” e terminou via comentário. Agora sim ela vai correr atrás, vai ter que correr muito atrás de outro namorado e de uma dignidade nova, porque a dela foi apedrejada em mural público. Lembre-mo-nos também dos espertinhos que publicam queixas do próprio trabalho e tem gente da empresa entre os seus “amigos”. Esses gostam de viver perigosamente.

Antigamente, precisávamos mostrar para as pessoas que elas não eram a grife da roupa que elas usam ou a marca do fast food que elas comem, que ter uma estante cheia de livros (não lidos) em casa não as fazia mais inteligentes e que usar um Mac não as fazia mais modernas. Agora temos que tentar explicar para as mesmas que publicar essas besteiras não as faz mais conscientes ou ativas na sociedade. E NÃO, a cada vez que você compartilha uma imagem, uma árvore NÃO é salva e 5 centavos NÃO são enviados para o tratamento de uma criança com doença genética cuja foto deve ter uns 5 anos depois do óbito real dela. Plante uma você e doe para o hospital do câncer.

No final, o que dá pena é que todos estão tentando sair da mesmice. Com o excesso de liberdades e possibilidades, todos acabam querendo o mesmo smart-fone, o mesmo computador, as mesmas roupas e os mesmos carros, e todo mundo fica diferente, mas meio igual. Esses status do Facebook são o último grito de tentar se diferenciar dos outros – e de tentar ouvir os próprios conselhos. As pessoas tentam passar na vida virtual o resultado que elas queriam ter para suas vidas, enquanto acabam parecendo ainda mais falsas, isso quando não denigrem a própria imagem com lavagens de roupa suja online e desconhecimento total da gramática e ortografia da língua portuguesa. Assim como você escolhe sua roupa para sair para não dar vexame na rua, escolha o que você publica nas redes sociais. Se puder, saia um pouco da internet ou a use para ler algum artigo ou livro. Afinal, sabedoria é poder, hoje, amanhã e sempre, e nunca vai sair de moda.

Comments
One Response to “Muito barulho, pouca verdade”
  1. AnaLú disse:

    Olha, ta aí uma coisa com a qual eu concordo com vc. Redes sociais são usadas apenas pra que as pessoas mostrem um lado que elas na verdade não possuem.

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