É proibido subir na vida

Durante a semana, conversei com alguns amigos e estávamos em geral chateados com as atitudes de outrem em relação a nós. Não era de qualquer cidadão que nos queixávamos, era de pessoas com quem costumávamos andar sempre. Ouvindo cada história, percebi traços em comum e acabei formulando uma teoria ainda não comprovada cientificamente: para os outros, é proibido você subir na vida.

Como toda regra, essa teoria possui exceções, que todo mundo chama de “os amigos que eu posso contar no dedo”. Pois bem, o caso é que conforme você trabalha, namora, casa, é promovido e congêneres (sem contar os casos em que o status sobe à cabeça), as pessoas vão se afastando. Algumas situações são totalmente compreensíveis, como por exemplo o caso de uma amiga que estudava na minha sala da faculdade. Ela começou a trabalhar e namorar, e como eu estudava de manhã e ela transferiu para o período noturno, o contato diminuiu. Nem por isso nossos poucos encontros perderam a qualidade. Já outras pessoas têm o péssimo hábito de abusar da boa vontade ou de se fazerem vítimas da situação. Vamos explicar com exemplos baseados em fatos reais.

Você não pode arranjar um relacionamento legal, e não discuta. Quando se consegue um desses, é normal que você saia menos com os amigos e mais com o amor de sua vida, mas ainda administra um tempo para os velhos companheiros de faculdade, escola, trabalho, bar, etc. Teoricamente, as pessoas deveriam entender isso, mas nem sempre é o que acontece. Quando os outros arranjam um(a) namorado(a) legal, tendem a ficar com pena de você, convidam amigos extras para que você não “segure vela”, não te convidam para ir ao Playcenter, pois na montanha russa os carrinhos são sempre em pares, essas coisas. Mas quando você, ex-encalhada(o), arranja alguém, tudo muda de figura. Você “some”, ou “não pensa mais nos amigos”, como dizem. Em um caso extremo, ocorrido com a amiga que conversei essa semana, ao começar a namorar e dar menos atenção à sua companheira de república (que antes era ela a descolada que namorava), no ápice da inveja, a ex-descolada entregou as chaves do apartamento para a imboliátia e mandou recado para a futura-ex-companheira dizendo “o apartamento será entregue daqui a 15 dias”. Faz 2 meses e 15 dias que as duas se mudaram de lá, vivem separadas e nunca mais olharam na cara uma da outra.

Outro caso interessante é de uma amiga que conheço desde os tempos de adolescência, e desde sempre foi um amor de pessoa, mais preocupado com os outros do que consigo mesma. Ela estava cursando faculdade e tudo mais, cheia de planos, e começou a namorar. Se casou, e por sorte e mérito, o cara é bem de vida. As viagens de férias são para o exterior ou para o litoral, com a lancha e tudo mais. Sempre levou as amigas com ela, dava carona desde quando ganhou um carro, tentou oferecer o máximo de conforto a todos e tudo foi sempre entendido como maneira de se exibir. Nestas férias, levou uma grande “amiga” dos velhos tempos para o litoral no réveillon. Cinco minutos que descuidou da moçoila, ao pegar sua câmera, viu fotos da bonita bem juntinha de seu marido. Não aconteceu nada demais, mas não foi agradável ver aquelas fotografias tão próximas. Chamou a moça para um canto e conversou. No dia seguinte, a fama que a querida espalhou de que ela deu um esporro, que ninguém pode nem chegar perto do marido, entre outros exageros, quase rendeu um episódio do seriado “Cariocas”, chamado “A ciumenta do Réveillon”. Se ela quisesse tornar isso público, não teria levado a amiga para um canto para conversar, teria esbofeteado ela ali no meio de todo mundo mesmo, com toda a satisfação.

Já no meu caso, quando vim para São Paulo alguns já começaram a me taxar de metido. Assim que consegui arranjar um bom trabalho e tinha menos tempo para visitar os amigos no interior, eu era o pedante. Quando sugeri a alguns amigos que estudassem mais para conseguirem oportunidades melhores, eu era o filhinho de papai que tinha a vida fácil. Agora que estudo para uma carreira ainda melhor, e com isso sacrifico alguns prazeres para estudar mais, eu sou um insuportável que não sabe aproveitar a vida. Mas quando eu conseguir atingir meu objetivo e dar uma festa, eles vão querer ser convidados, e se eu não convidá-los, a lista de adjetivos vai crescer bastante.

Por isso digo aos meus amigos (aqueles que se pode contar nos dedos das mãos) que, se quiserem subir na vida profissional, pessoal ou em qualquer outro plano, que comecem fazendo isso em segredo. Depois, vão selecionando seus amigos e comprem um saco de areia para distribuir socos, porque as pessoas não suportam que os outros subam na vida enquanto eles ficam em casa acomodados, assistindo novela e coçando a bunda, felizes sabendo que o país se desenvolve, que o PIB cresceu 7% (quando sabem o que é isso), pois assim eles podem comprar laptops e celulares, já que ainda não existe “bolsa livro”. A vida nos ensina a tapar os ouvidos e seguir em frente.

Você evolui e é rotulado de pedante.

Você evolui e é rotulado.

Comments
One Response to “É proibido subir na vida”
  1. Larissa Lübe disse:

    Pura verdade. A saída é mesmo tapar os ouvidos e seguir em frente. =*

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