Encontros desencontrados

Nesses últimos meses, assim que acesso a internet para ver recados, e-mails ou qualquer tipo de comunicação indireta vejo mensagens como “você passou do meu lado e não me viu!”. Uma situação chata, pedi mil desculpas, perguntei onde era, tentei me lembrar do ocorrido para entender o motivo da minha falta de atenção. Da primeira vez, tudo bem. Daí veio os segundo aviso. Depois o terceiro. A partir do quarto eu já estava pensando em ir ao médico para ver se eu sofria de algum problema de déficit de atenção. Decidi averiguar os casos para ver o que poderia ser feito a propósito.

Os “encontros desencontrados” possuem diversas características em comum:

1) ocorreram durante a tarde ou o fim de tarde, entre 16 e 18:30h;

2) o local é o mesmo, no percurso desde avenida Paulista, dobrando esquina com a rua da Consolação e descendo esta até um logradouro bem próximo de uma faculdade;

3) eu sempre estou de mochilinha, andando rápido pela estrada a fora;

4) a pessoa tentou chamar minha atenção sem sucesso;

5) eu fico com a fama de chato, eles ficam sem graça de terem causado um mini escândalo.

Bom, primeiro vamos aos fatos que mais corroboraram com esses acontecimentos.

Assim que comecei a fazer o cursinho para a prova que prestarei ano que vem, procurei as alternativas de transporte para chegar lá o mais rápido possível. Como Murphy é um ser onipresente na vida das pessoas, todos os cursos de São Paulo ficam do lado do metrô, numa rua super fácil de chegar, no contra-fluxo do horário de pico, menos o meu. Optei por um que fica numa rua movimentadíssima, com trânsito maravilhoso que lembra as luzes de Natal (tudo brilhante e inerte), com fluxo de jovens que acabaram de ingressar na faculdade e que ficam reclamando de tudo no ônibus, como o horror que é o professor pedir para ler um livro inteiro, ou que a aluna foi de decote pra aula, mas ele não deu 0,75 pra ela e por isso está preocupada achando que os seios são pequenos, pois ele só deu 0,50 na nota, etc. Seria fácil demais estudar ao lado de casa, acho que inconscientemente meu instinto aventureiro me fez optar assim.

Com o auxílio do Google Maps, tracei vários percursos e fui testando um a um. Pegar ônibus na rua perto de casa seria superprático se o próprio não demorasse 40 minutos para aparecer, viesse em estado de lata de sardinha e ainda demorasse cerca de 30 minutos para percorrer um percurso que eu demoraria 20 a pé. Então decidi fazer esse primeiro trajeto de uma maneira mais fitness, deixando para pegar a condução apenas na segunda rua, a Consolação. Neste segundo trecho, o ônibus vai rápido pois há o corredor de ônibus (para os não-paulistanos, uma faixa exclusiva para ônibus, onde carros que não sejam táxis com passageiro são terminantemente proibidos). No entanto, a concorrência para entrar em qualquer um dos veículos (todos passam onde preciso ir) é absurda e nesse momento não há educação que exista naqueles seres humanos. São moças, senhoras, rapazes, quem quer que seja, empurrando, xingando, perdendo qualquer noção de compostura. Não interessa quem chegou antes na fila, o que importa é entrar naquela lata e ir embora. Contando o tempo que eu ficava nestas condições e o estresse, desisti e finalmente aceitei meu destino de ter que ir de casa até a aula a pé, sem atalhos nem facilidades da vida moderna.

Porém, a rua da Consolação conta com um alto índice de pedintes e eu devo ter cara de sobrinho do Sílvio Santos antes da crise do Panamericano. Todos, sem exceção, olham pra mim e vêm me pedir dinheiro. Algumas vezes juntam-se grupinhos e vem o coro me pedir alguma coisa, o que deixa a situação complicada, ainda mais porque não ando com dinheiro, só com o bilhete do ônibus. Como forma de defesa, comecei a andar rápido e com cara de poucos amigos. Não obstante, virou moda bater em pessoas no meio da rua e saiu no jornal uma notícia sobre violência gratuita que aconteceu na mesma rua. Sendo assim, fui aperfeiçoando minha técnica de andar com cara de Hitler, e foi aí que os casos de encontros desencontrados.

Algumas das ocorrências eu consegui negociar a resolução. Em uma negociação final com um amigo, acordamos ir em uma sorveteria, daquelas de sorvete de iogurte, tudo por minha conta, resolvendo assim o impasse. Já em outro caso eu percebi, bem mais tarde, que poderia ter passado por um conhecido durante o mesmo trajeto. Ao chegar em casa após a aula, tentei entrar em contato com o moço e vi que ele não fazia mais parte da minha lista de contatos nas redes sociais. Procurei pelo nome e achei ele ali, com nossos amigos em comum nos links e o botão “adicionar como amigo”. O resultado de minha ação despretenciosa foi que ele me excluiu da rede social, assim tive certeza que era ele mesmo naquele dia, e que fui um ogro maldito que merece morrer quinze vezes, ser pisado no meio da rua durante a passeata do papai Noel na avenida Paulista e aparecer num telejornal na seção de piadas comentadas pela Elke Maravilha. Já entrei com recurso e estou esperando a resolução final, só me dou por vencido com o trânsito em julgado (quando não há mais como pedir recurso nenhum, juridicamente falando. Larissa e Fiorina ficarão super orgulhosas ao ver eu usar esses termos!).

Enfim, o ano está acabando e a correria e estresse tendem a diminuir. Assim ficarei mais atento na rua e não darei uma de “esnobe”. Acho que farei uma camiseta escrito “você me conhece? Cumprimente-me!” ou “em caso de falta de atenção, puxe-me pelo braço”, não sei. Só sei que pedi encarecidamente aos conhecidos que tomem providências pela minha falta de atenção. Da próxima vez que eu chamar alguém na rua e não me responderem, nem vou ficar chateado. A pessoa deve ter algum motivo para isso, nem que seja excesso de distração, ou eu que chamei a pessoa errada mesmo… Acontece.

Onde ando com a cabeça?

Onde ando com a cabeça?

Comments
2 Responses to “Encontros desencontrados”
  1. Larissa Lübe disse:

    Uai, já dá para comentar aqui agora? Que chiqueza! Fui até citada no texto, gente! Quanto orgulho!
    Quero textos e mais textos… textooooooooooooooooooos!

    Amo-te! =****

  2. Elton disse:

    Adorei o post. Sabia que viria um mais cedo ou mais tarde com esse tema recorrente. E a sorverteria nem rolou, né? Mas assim que eu voltar de viagem a gente vai com certeza. Está na minha lista de resoluções do ano novo. ^_^

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