Sessão Replay 2: Lugar de conversar é no portão

Alguns anos atrás, eu tinha a mania de sair tarde de casa e voltar tarde da noite a pé, porque no interior tudo é mais tranquilo. Isso não significa que não seja perigoso, mas não chega a ser um grande risco dependendo da distância. No trajeto eu sempre passava na frente da casa de uma amiga, com a qual eu tinha um certo grau de parentesco, e um dia desses paramos pra conversar. Como eu morei em outra cidade dos 5 aos 10 anos, tinhamos perdido um pouco de contato, mas daí começamos com papos bobos e foi ficando divertido. Virou que a casa dela era praticamente um pedágio, eu tinha que parar ali toda noite que saia de casa, obrigatoriamente.

Alí peguei uma síndrome que é comum em muita gente, principalmente nas cidades menores, mas não tão difícil de acontecer em metrópoles: a síndrome da conversa infinita no portão. Aquele papo de “boa noite! Tudo bem! De onde você está vindo?” que deveria acabar ao se responder essas três indagações rende mais que aquele amaciante concentrado da propaganda na TV. É incrível. Os assuntos se conectam e tudo vai se encaixando, bem no estilo Lego. Fala-se sobre a noite, a família, os namoros, os foras, os amigos, os estudos, a política social, a violência na cidade, as soluções pra tudo isso, a escalação ideal da seleção para a próxima Copa, nossos planos assim que completarmos 30 anos, depois o que pretendemos pros 50 anos, terceira idade, crônicas sobre coisas engraçadas que nossos pais fizeram, coisas que os bichos de estimação aprenderam a fazer, e por aí vai.

Não sei explicar o porquê, mas conversa rende é no portão mesmo. Pode reparar, as vezes você vai na casa da pessoa só pra pegar um livro que você esqueceu, um DVD, qualquer coisa, chega na hora de dar tchau no portão, começam aquelas alfinetadas de assunto, tipo “depois eu te conto que que aconteceu lá na festa depois que você saiu!” e coisas nesse estilo. Como qualquer ser humano, é natural que não tenhamos paciência para esperar e digamos “ah, não! Conta agora! Só por cima!”, começam as pistas tipo “é sobre fulano, depois que bebeu mais algumas!” e daí já viu. É algo meio metafísico… talvez a vibração da voz, com a corrente de ar que passa e é agitada pela vibração dos carros que passam ocasionalmente (estamos considerando conversas mais à noite para este exemplo), que desvia a vibração das cordas vocais e estas ondas sonoras batem e vibram as grades do portão, sendo rebatidas e amplificadas, chegando aos nossos ouvidos de maneira que quando vibram o martelo, a bigorna e o estribo, mandam um sinal agradável ao cérebro que faz com que as pernas não cansem, a sede não venha e o inconsciente lembre de assuntos que você não lembraria nem numa sessão de regressão. Um dia ainda provarei essa tese.

E o papo rendia… eu chegava lá meia noite e ficava até o sol raiar. Ficávamos feito cumpadres, ríamos muito, falavamos bobagens e desde o primeiro dia que isso começou, parecia que tinhamos nos visto todos os dias de nossas vidas inteiras. Fora o fato de ela ser linda, agradável, pra casar (interessados depois me mandem contato por comentário que eu repasso pra ela), me contando todos os casos e acasos, dos mocinhos enamorados, de tudo. Também não era nada enjoada. Não era daquelas que não ficava lá fora muito tempo porque as unhas tinham que secar. Que naaada!! Colocava a bermudinha e vinha pro portão, então ficavamos andando pra lá e pra cá na calçada, descalços mesmo!! Até o guardinha de moto ficou olhando pra gente nos primeiros dias achando estranho. Sei lá, as vezes ele ficou meio receoso com a repercução do caso Richtofen e achou que estaríamos planejando algo… não sei…

Mas além dela, havia outro amigo que o portão da casa era uma área de risco, tanto quando eu estava no portao da residência dele quanto ele estava no da minha. Se eu ficava na casa dele umas três horas, ficávamos falando no portão umas quatro. Ainda mais que a casa era compacta, os quartos e tudo muito próximo, sobrinhos, gente passando, ficava difícil falar de assuntos daqueles que você precisa contar pro seu amigo porque não se aguenta com tanta novidade e empolgação. O portão de lá era depois da rampa da garagem, como se tivessem medido tipo “ok, daí aqui nessa distância o carro sobe em cerca de três segundos e o som da conversa de portão não chega até a janela da sala nem incomoda os vizinhos”. A coisa rendia tanto que um vez, na época que ele namorava, a bela apareceu lá em cima e começou a chamar ele pra dentro. Não dando certo, quinze minutos depois ela veio e “você vai entrar ou vou ter que jogar um balde de água fria?”. Veio a irmã acalmar a nervosinha e puxá-la de novo pra dentro de casa. Bons tempos aqueles!

Depois dessa época eu me mudei para São Paulo. Na casa do amigo, quando vou pra lá, o papo no portão ainda rende. Já a mocinha se mudou para outra cidade, e eu até imagino que no dia da mudança ela queria rancar e levar o portão, tanto para lembrar dos velhos tempos como para conversar horas e horas com mais gente. O jeito é eu ir na cidade dela ou ela vir pra cá, daí ela sobe, deixa as malas e tudo aqui no apartamento, bebe uma água e descemos, porque pra matar a saudade de verdade, o negócio vai ser conversar no portão!

Eu, amiga e amigo no portão.

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