A dificuldade de se trabalhar ou estudar em casa

Este ano me dediquei mais aos estudos e menos ao trabalho. Tracei um objetivo um tanto difícil e isso requer sacrifícios. Todo dia acordo sabendo que não poderei ficar assistindo TV por muito tempo, ou andar à toa pela cidade para ver o que acontece. Preciso sempre otimizar meu tempo sem ficar louco, o que não é fácil conciliar. Porém, não bastam os meus esforços para que tudo isso dê certo, o “ambiente” tem que ajudar, e digo ambiente de maneira muito ampla. Não é novidade que quando seu tempo é escasso, o universo conspira para atrasar você em tudo o que ele pode, mas muitas dessas artimanhas universais podem ser contornadas, o difícil de contornar é o ser humano, porque é igual quando você e uma outra pessoa querem passar do mesmo lado da calçada: você vai para um lado, a pessoa vai também, pende pro outro lado, a “pessoa-espelho” idem, e ficamos dançando essa valsa da via pública até um dos cabeçudos decidir abrir mão do direito de escolher de que lado vai seguir.

É fato, quando você possui uma agenda cheia mas muitas dessas tarefas são realizadas dentro de casa, as pessoas tendem a achar que você é vagabundo. E não sou a única vítima disso, pessoas que trabalham em home office devem sentir o mesmo preconceito. Nisso, os cidadão tendem a concentrar todas as suas frustrações do trabalho de escritório; do namoro/casamento/paquera que está dando errado; das discussões familiares; do cachorro que prefere o vizinho ao dono; do chocolate que comprou e veio derretido, não podendo, assim, separar quatro tabletinhos para a manhã e quatro para de tarde; do prato que ele viu a receita na internet e assistiu como fazê-lo no youtube, mas ainda assim não deu certo em casa; do cortador de pizza caríssimo que comprou nessas lojas de decoração e quando pediu pizza ela já veio cortada; ou qualquer outra coisa da vida, descontam tudo isso em você. Só esse mês que passou eu engoli tanto sapo que quase mudei meu nome nas redes sociais para Caco, dos Muppets, e só não mandei todo mundo passear no bosque porque senão o Ibirapuera teria super lotação com até cinco pessoas em cada pedalinho.

Decidi me preparar para um concurso um tanto culto, desses que a lista de bibliografia já dá um livro. Comprei os mais obrigatórios e mais gerais e comecei a ler. Eis que, no mês de outubro, meu pai diz que vai passar uma semana aqui em casa. Com essa notícia eu já sabia que minha privacidade seria cortada pela metade, pra dar atenção pra ele, sair e essas coisas. O que eu não sabia era que ele teria planos para mim, para o apartamento e para meus meses seguintes. Eu havia pedido humildemente para chamar um eletricista e colocar umas tomadas extras na parede da sala, pois só tinha quatro e tem a TV, aqueles aparelhos de sinal da operadora de TV a cabo, roteador, daí não sobrava tomada pra DVD e videogame, precisava ser aquele esquema “escravos de jó”, ou seja, tira uma tomada, põe outra tomada, não deixa ficar… aquela confusão que duas tomadinhas a mais resolveriam. Mas para meu querido papai perfeccionista, era pouco! Ele podia fazer mais! Sem me avisar, pediu para trocar toda a fiação do apartamento.

A ideia era realmente nobre, tudo ficaria perfeito, mas a execução nunca é tão boa quanto soa em teoria. Junto do eletricista, meu pai, que gosta de brincar dessas coisas de construção, trouxe toda a caixa de ferramentas dele e começou a furar daqui, quebrar de lá, enfim, enquanto eu achei que teria paz em um cômodo enquanto quebrassem o outro, vinha um da dupla dinâmica e ficava martelando no meu ouvido. Com muito esforço e contando até 1.856.349.587 toda vez, acabei desenvolvendo um dom de ignorar o barulho e conseguir ler sobre a política externa brasileira. Assim que me viu com um livro na mão, o queridão me disse “já que você não está fazendo nada, vem aqui me ajudar”. Mereço? Estudei tanto pra chegar uma hora dessas e virar ajudante de pedreiro. Era “passa a furadeira, passa a broca, passa bucha”. Passei tudo o que ele pediu, e a paciência ia passando junto com cada um daqueles materiais também. Mas fui superior a isso e chegando a noite, tentava recuperar o tempo perdido.

Depois da semana sem fim, finalmente teria paz… ou não. Meu pai me ligava a cada dez minutos para avisar algo, pedir algo, pedir pra medir algo, pedir pra checar algo, pedir para avisar algo, pedir para ligar para o eletricista para ver se ele estava com a ferramenta que ele perdeu… também decidiu que esse era o momento para resolver várias coisas, tipo mudar o nome que vinha em algumas contas para o nome dele, dai vem aquela lista de “xeroca isso, leva lá, liga nesse número, fala com o fulano, vai lá do outro lado da cidade levar, passa num cartório…”. Detalhe é dizer que quando digo “assim que puder eu vou” preciso ouvir um “por quê? Vai hoje!”. Ao fim do dia, antes de ele ir embora para o interior, ainda levei um “mas que horas você estuda, afinal?”. Pois é, é isso que eu quero saber também.

Já no mundo virtual, de vez em quando entro no MSN para conversar com o pessoal, e veio um amigo conversar. Foi bem direto, disse oi e perguntou qual era meu usuário em um site desses de rede social, que continha algumas informações pessoais. Não entendi o motivo, não tinha nada ali que ele não soubesse, no máximo aniversário, altura exata, mas não tinha o número dos sapatos que eu calço, por exemplo. Perguntei o motivo de querer aquele site que eu nem atualizava mais. No que perguntei isso, veio uma enxurrada de insultos e o nível baixou até o centro da terra, que se ele tivesse me mandado pros quintos dos infernos teria sido muito educado. Em seguida perguntei o motivo de tamanha grosseria por causa de um site que eu nem atualizo mais, e ao ouvir isso, ele disse “o que? Ah nãooo, não era esse que eu queria, era aquele outro! Tá vendo, foi só um mal entendido”. De cabeça quente mas ainda controlado, disse que não precisava descarregar o que ele aprendeu de palavrão nas últimas doze encarnações só por causa disso, e ainda fui chamado de dramático.

Partindo para o campo sentimental, para poder espairecer um pouco, fui movimentar minha lista de paqueras para ver o que acontecia, se eu conseguia marcar algo pra me distrair, coisas assim. No primeiro contato, já recebo respostas meio frias, e ao perguntar o que acontece, recebo um “é que você nunca tem tempo pra mim. Assim não dá! Preciso de alguém que me ligue sempre, tenha tempo de sair comigo, ir no cinema, ficar junto no final de semana, (a lista continuou por mais algumas mensagens)…” É mole?? Vi uma vez na vida e sou mais cobrado que marido que trabalha o dia inteiro, pai de cinco filhos com cachorro, gato e 3 papagaios!! Perdi uns belos vinte minutos explicando a situação, a bibliografia gigante que preciso ler, os benefícios de estar com alguém estudado… Tudo em vão. Não estar disponível na hora e dia que se quer é crime agora, e não há o que discutir. Nesse caso específico, mandei ir atrás de algum desempregado que daí sim, estaria disponível a qualquer momento.

Mas não é só comigo que essas coisas acontecem. Uma companheira de estudos contou que ela, seu noivo e outros casais de amigos decidiram passar o final de ano na praia e foram procurar apartamentos para a temporada. Ao achar um que necessitava de um depósito um tanto alto, decidiram fazer uma poupança e ir juntando até chegar a hora de pagar o aluguel do mês que estariam lá. Quem iria abrir a poupança? “Ahh, eu não tenho tempo de ficar indo em banco pra ficar abrindo poupança, né, colegaaa?” resumindo, minha amiga foi, porque só ela era “desocupada”, sendo que ela e o noivo já haviam alugado um apartamento separado para as férias, pois queriam mais privacidade. Foi lá fazer a conta para a turminha, que deixaram de pagar e agora ela está pagando os juros do banco e brigando com eles. Legal, né?

Por isso, por mais ocupados que vocês estejam, e por mais desocupado que o outro pareça estar, sempre pensem dez vezes antes de se intitularem “mais ocupado que o outro”, porque vocês podem cair em um dos papéis acima, ou de pessoa considerada desocupada, ou do xarope que não entende que se pode estar muito mais ocupado em casa do que ele jogando paciência no computador do escritório.

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