Antes, durante e depois – feriado de finados

Neste feriadão prolongado, voltei para o interior para ver a família viva, e no 2 de novembro, ver a parte da família que não está mais entre nós. Esses feriados que aproximam muitas memórias de vida e de morte me fazem ficar pensando nessas coisas de tempo, e daí vem aquelas coisas que fazem a gente falar “nossa, como o tempo passou!” e ficar imaginando o que será do ano seguinte, na mesma data. Como todo bom detalhista, presto atenção em tudo, como sempre prestei, inclusive nas pessoas em volta. A diferença é que hoje sou mais cara de pau e saio conversando, para tentar entender o ser humano à minha volta. Daí surgem novas lembranças e novas historinhas para contar.

A primeira coisa que me aconteceu nesse feriado, bonitinha mas que dá aquele apertozinho no coração, é sobre minha vovó paterna. Uns dois dias antes do feriadão oficial, vamos até o cemitério da pequenina cidade onde vovô foi enterrado e lavamos o túmulo, pra ficar bonitinho e fazer aquela fita quando chegar a hora certa de ir levar as flores e velas (e assim que chegar, dizer bem alto “nossaaa!! Que túmulo mais limpinho e brilhante!” pra todo mundo ver e aprovar nosso esforço). Vovó, apesar de sempre ter sido magrinha e delicada desde que a conheço, ia bonitinha até lá e sentava do ladinho, toda fofa, e ficava coordenando o trabalho. Dessa vez, a quase noventinha já teve que ser levada com mais cuidados. Ela está toda “bonequinha de porcelana”, como eu prefiro dizer, pois nessa idade já não pode tropeçar, os pezinhos já não respondem tão bem e cada raizinha ou paralelepípedo levantade pode ser um obstáculo, então escoltamos ela, um de cada ladinho segurando um bracinho para não correr risco nenhum, pois assim como bonequinhas de porcelana da Ásia antiga, ela é rara e se quebrar, não tem conserto. Ficou sentadinha, quietinha, apenas admirando nosso trabalho e levou duas velinhas para acendermos no cruzeiro pelas almas daqueles que não tem um pelotão super pró-ativo como o nosso nessas datas importantes.

Estes momentos não me ocorrem muitos pensamentos sobre como será o fim de tudo, mas sim como foi o começo. Quando pequeno, eu adorava ir para lugares com aparência antiga, isso inclui cemitérios. Eu gostava de imagens de santinhos, talvez seja por isso que eu goste tanto de bonequinhos, desde cavaleiros do zodíaco até os mais sofisticados que coleciono até hoje, o início de tudo estava aí! Eu andava por entre os túmulos e assim que via uma imagem meio largada, sem estar em um lugar fechadinho certinho, eu pegava, queria guardar, não deixar alí jogado. Só mamãe deve saber o número de Nossas Senhoras Aparecidas que ficaram desaparecidas assim que eu passei (ela devolvia todas, contra minha vontade), mas perceberam que isso já estava indo longe demais quando paramos para ver uma igrejinha dessas de beira de estrada, abandonada, e de repente, ouve-se um barulho de algo pesado sendo arrastado. Ao se virarem, não viram o menino Jesus, viram eu, com 7 aninhos, carregando uma cruz de madeira enorme, maior que eu, apoiada no meu ombrinho igual naqueles vitrais da igreja, indo em direção ao carro e justificando que a relíquia não podia ficar alí abandonada. Interromperam minha peregrinação, tiraram a cruz que eu carregava, mas não chegaram a brigar comigo, que eu me lembre. Depois disso acho que desencanei, pois as imagens também eram todas iguais, nunca lançaram um São Jorge edição especial com armas novas e lutando com outro bicho que não fosse o dragão, nem uma Nossa Senhora com mantinhos para trocar, nada de mantos de verão, mantos históricos, sempre o mesmo. Daí, na falta de novidade, passei a querer colecionar outras coisas.

Lembro também como eram os grandes muros do cemitério, como me perdia no meio das lápides, como me encantava ver a labareda que se levantava do cruzeiro… Nisso eu tinha uns 10 aninhos ou menos. Hoje já não tem a mesma graça. A labareda não passa de um foguinho que mal daria para esquentar um marshmallow direito e eu consigo ver por cima do murinho do cruzeiro os papéis pegando fogo para ajudar a queimar as velas, acabando com a magia das velas que faziam o fogaréu acontecer. Além disso, agora quando vou chegando perto daquele muro branco do cemitério, me lembrando da época em que aquilo parecia uma fortaleza que não deixava as almas escaparem, chego bem perto do muro e percebo que ele já está praticamente do meu tamanho. Se eu estivesse usando com daqueles tênis que parecem ter salto alto, tipo um Nike Shox, eu conseguiria ter uma visão panorâmica lá de dentro e nem precisaria entrar, conseguiria jogar as rosas lá de fora e acertar o vasinho que fica do lado do tumulozinho de vovô. Acabou a sensação de segurança e parece que a alminha de vovô poderia, junto com um grupo de alminhas fanfarreiras, num halloween, de repente, saltar o murinho e varar a noite jogando bets na rua da frente.

O estacionamento então, nem se fala. Lembro como chegavamos mais tarde e todos os lugares estavam lotados, estacionavamos no último trechinho e vinhamos peregrinando até o portão. Dessa vez contei, são 12 vagas. Se eu tropeçar ao sair do carro na última vaga, praticamente caio no portão do cemitério.

Porém, coisas novas também acontecem. Eu achei que já tinha visto grandes inovações de marketing, mas as pessoas daquela cidade de pouco menos de 7.000 habitantes me deixam boquiaberto. Logo na entrada do cemiteriozinho, além de um novo vendedor de algodão doce, existe uma caixa d’água com uma torneirinha para que os vivos aguem as plantas e encham baldes para limpar os túmulos. Na fila para encher um balde, uma senhora enchia o seu baldezinho e reclamava do tempo, dizendo que havia chovido muito ultimamente e por isso teve que lavar os túmulos quase todos os dias naquelas semana. Fiz aquela carinha de verão, aquele sorrizinho, e assim que a desocupada virou para trás e jogou água na lápide, reparei, como quem não quer nada, que aquela senhora que estava mais pra alemã ou europeia estava lavando a lápide de uma família japonesa. Fiquei pensando em como abordá-la para avisar do ocorrido, pois pensei que se tratasse de um engano. Pensei em dizer “olha, achei sua lente de contato!” ou talvez “conheço um oculista genial, sabia! Olha, pega o cartãozinho dele, só pra divulgar por aqui…”, mas acabei optando pelo “a senhora está ajudando eles a lavar a lápide?” ou algo assim. Eis que ouço um “ahh, não. É que cobro R$10 reais por mês da família para lavar o túmulo sempre, pra ficar bonito o ano todo. Por isso vou lavando vários aqui”. Vi em minha frente uma business woman. Imaginem! Se ela lava o túmulo por R$10 reais e fala diretamente com a família, ela deve saber quando ou quantas vezes ao mês eles vêm, então na verdade é capaz que os lave só nas vésperas das visitas. Outra coisa é que como ela lava muitos túmulos, podemos ter uma empreendedora em potencial, pois ela monopoliza esse serviço naquele local, e como usa água do próprio estabelecimento e vai a pé para o trabalho (naquela cidade de primeira, que ao engatar a segunda, você já saiu da cidade), seu custo é praticamente zero! Já imagino daqui a uns três anos, eu chegando lá e ela com lavadoras terceirizadas e um shopping ao lado, pois com as visitas de finados e outros feriadinhos, a praça de alimentação ficaria concorrida, além das lojas de lembracinhas, como chaveiros de vassourinha e frases como “eu lavei o túmulo da sogrinha este ano!” ou chícaras com mensagens como “quem beber nesta chícara lava o túmulo!”, entre outras bem sacanas, sabe? Daqui a pouco aquela mulher estará aceitando Visa, MasterCard e American Express.

Na volta, escoltamos novamente vovó até o carro e eu dirigi até nossa pequena cidade, mas não tão pequena quanto a de quase 7.000 almas. Ainda achei incrível como a cidade fica pequena, menor do que já parecia, quando você cresce e principalmente quando, com o carro, se atravessa ela inteira em 10 minutos. De qualquer maneira, continuaremos o ritual, de preferência com os mesmos integrantes desse ano, se juntando aqui na cidade de 230.000 habitantes e indo até a cidade que parece que tem mais gente enterrada do que viva, só para visitar o vovô, que assim como seus conterrâneos, escolheu ser enterrado por ali… talvez porque seja mais tranquilo e fácil de localizar. De qualquer maneira, finados é um feriado que me faz lembrar os bons tempos de antes, quando subir no túmulo de meio metro de altura para ver a foto do vovô era como escalar o monte Everest, com todo aquele desafio e sensação de superação; me instiga no durante, ao ver que a cidade não cresce, mas que as pessoas vão mostrando seu lado “criativo” e me impressionam ao se virar para manter a coisa como está, sem ir pra frente ou pra trás; e o depois, com aquela vontade boba e teimosa de que nada mude, que tudo fique como está. Afinal, tem dias que é melhor não sermos muito realistas.

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