Sessão Replay 1: Good old times

Saudade é algo constante em minha vida. Quando eu gosto das coisas, lugares ou pessoas, eu gosto com vontade mesmo, sabe? Daí fica aquele desejo de apertar o botão de rewind, chegar naquela parte do filme e ficar dando replay, replay, replay, replay, replay até o botão quebrar. Por isso mesmo este post será uma sessão Replay de um dos últimos acontecimentos que quando eu lembro me dá vontade de voltar lá AGORA e apertar as pessoas que estavam lá junto. Vai ser de um só porque são muitos, e para o texto não ficar maior que a bíblia, é melhor escolher um por vez. Os textos também não conseguirão abordar toda a situação, mas tentarei dar um gostinho de como foi a experiência.

Hoje lembrarei da época em que morei nos Estados Unidos no estado do Colorado. Basicamente, cheguei com a mochila nas costas, sem emprego, sem nada, só com o dinheiro de um primeiro aluguel, busão e da comida do mês. Cheguei a um apartamentinho que era alugado por dois empregados do resort de ski da cidade, e eu conhecia a namorada de um deles desde minha outra temporada nos EUA (que ficará para outro post). Eramos grandes amigos desde a outra temporada, assim ela me chamou para morar lá e assim, dividiríamos o aluguel, um tantinho clandestinamente, mas isso é um detalhe bobo que a polícia não precisava saber. Os reais moradores eram um chileno e uma brasileira. Eu conhecia o chileno e sua namorada peruana, mas a brasileia e o amigo dela (outro clanclan – apelido carinhoso para clandestino) eu não conhecia. Enfim, cheguei, deixei as malinhas e fui procurando meu espaço em algum canto.

A superocupação das casas tinha um bom motivo: vinham muitos alunos trabalhar na estação, mas não havia casas suficientes para todos, por isso nem as autoridades ligavam muito pro esquema de superlotação. Porém, como cada quarto tinha duas camas, sendo que em cada quarto ficava um dos casais (lembrando que o “casal” brasileiro era de amigos, somente amigos!), escolhi ficar na sala mesmo, com uma bela vista para a varandinha, onde se via ma parede branca da montanhinha congelada que ficava bem de frente (o apê ficava meio que num vale, um buraco mesmo, entre montezinhos), com as árvores congeladas, o rio congelado… uma visão alba. O sofá, por incrível que pareça, era mega confortável, e fora o detalhe de eu estar dormindo na frente da porta de entrada e as pessoas chegarem e darem de cara comigo amassando a cara no travesseiro improvisado de braço de sofá, nenhum grande problema. A cozinha, naquele estilo americano, toda aberta com um balcão separando seu espaço do meu “quarto”, também não era grande incômodo, desde que não resolvessem fazer nada defumado alí, e felizmente nunca fizeram. Em suma, meu quartinho era simples, a casa não tinha TV, mas era quentinha e aconchegante. A única coisa agora era conhecer os novos integrantes e ver como era o clima “em família”.

Os seres que mais mudariam minha vida nesta fase estavam ainda por entrar em cena. Minha amiga, que só falava um inglês nota 7 e espanhol me disse que os brasileiros eram meio quietões, não trocavam muita ideia, já que não falavam espanhol, só inglês e português. Isso criou uma espectativa de uma convivência meio silenciosa, meio “ninguém se conhece”, então fiquei apreensivo até a hora de conhecê-los. Eis que ouço passos na escadinha de madeira, o tilintar das chaves na maçaneta da porta e de repente, ela entra! Yess!! Como diriam nos antigos programas do Sílvio Santos, “E olha a Vívian lá! Lálálálá lálá! Lálálálá lálálálálálá!” Linda, cabelos negros super cuidados, virou e disse o “oi!” mais simpático do meu início de 2008. Descrever Vivi é difícil, mas é basicamente aquelas bonequinhas que se põe na vitrine de lojas de brinquedos, que quando a mãe compra a boneca pra filha, a que veio na caixa não parece tão legal quanto a que ela viu na vitrine (se bem que o exemplo dá margem a outras interpretações, já que criança geralmente é xarope com essas coisas mesmo…”)! E comparei com vitrine porque Viv’s era praticamente uma modelo! Tudo que ela fazia, a cada momento que ela parava, o jeito que sentava, lia, cruzava as perninhas, TUDO era mega fotogênico. Talvez ela não tenha escolhido uma carreira de modelo porque era inteligente, lia bastante, estudava e não tinha 1,90 metro, não sei. Era uma graça! Dez minutos depois estavamos super amigos e combinando passeios! Isso já me deixou bem mais tranquilo.

O segundo morador também era carioca como Vivian. Muito gente boa mas mais novinho, então um poucomais exagerado. Ele trabalhava na loja de aluguel de skis, basicamente ele apertava os parafusos que ajustam o tamanho do pé da pessoa ao ski, nada muito complexo, mas para ele, o trabalho mais perigoso do mundo, pois se ele errase, o ski sairia do pé da pessoa, que deslizaria descontroladamente montanha abaixo, batendo loucamente contra um cano no meio da montanha (não sei que cano, talvez de alguma fase do Mario Bros ali no meio do gelo, mas ele disse “cano” mesmo), cortando a pessoa no meio, e cada membro seu bateria em um outro praticante de ski, fazendo com que todos caissem e se chocassem uns com os outros, aumentando a massa de esquiadores rolantes, formando uma bola de neve gigante, causando uma avalanche, saltando de montanha para montanha cobrindo o mundo de neve e reduzindo a humanidade a algns sobreviventes, com aquela bola branca enorme que engole tudo. Praticamente como no jogo Katamari (clique aqui para ver a foto da capa do jogo). Mas ainda assim, ele era muito gente boa. Gostava de games, conversavamos muito disso, ele tinha algumas saudades de casa mas anda de ficar se lamentando demais. Acabou indo embora antes de terminar a temporada, mas voltou mais maduro pro Rio, eu acho.

Mas ainda existia uma vida real a se continuar. Comecei então minha rotina na cidade de Vail. No começo, meus dias não eram fáceis. Eu acordava cedo, ia de hotel em hotel, loja em loja, restaurante em restaurante completando os mesmos papeizinhos sobre meu nome, idiomas que falo, salário, esse tipo de coisa, e torcendo pra que me chamassem logo. Por sorte e provavelmente uma ajudinha divina, não demorei mais que uma semana pra achar empregos, no plural mesmo. Fui para entrevistas, comprei o cartão de ônibus que durava um mês inteiro e comecei a construir meu império, tudo ainda em cima do sofá, claro. Assim que a coisa engrenou de verdade, peguei dois empregos em hotéis muito bons e ambos queriam que eu trabalhasse período integral, então um dia eu trabalhava oito horas em cada um para não deixar nenhum chefinho na mão, e os meus eram muito bacanas MESMO, eu cheguei até a beliscar um deles para ver se era de verdade. Acabou que dois dias na semana eu trabalhava 16 horas (com as pausas para almoço e jantar, obviamente). Depois ainda preciso ouvir que um pessoal da TV, que fica numa casa da hora, come de tudo, é super bem tratado, concorre a uma bolada e que de vez em quando tem que mergulhar numa piscina e fazer umas provinhas de resistência vive num eterno estado de hipertensão, vivem no limite. Viver no limite é ser proletário e ter que esperar ônibus por uns 20 a 30 minutos com uma temperatura -20ºC, isso porque o caminho até o ponto é subida de gelo e demora mais 10 minutos.

Alguns dias depois, recebemos a notícia de uma brasileira que acabou saindo de um apartamento não lembro bem o porquê, se era porque estava ali por tempo determinado e deveria sair depois, se tinha gente demais na casa, o caso é que precisava ser resgatada por algum coraçãozinho bondoso que lhe cedesse um cantinho. Claro que oferecemos o nosso, e no dia seguinte, abrem-se as portas da esperança e entra a minha futura roommate: “ E a Larissa lá! Lálálálá lálá! Lálálálá lálálálálálá!” Lari foi, é e será pro resto de minha vida meu ventrículo direito. Chegou timidazinha, colocou um colchãozinho de ar no chão (ajudei ela a encher, coitada!), sotaquinho de bahiana, e com a convivência, viramos tudo! Confidentes, amigos, farreadores, TUDO!!! Nunca esquecerei as noites de conversas em que eu não parava de falar nunca, já que aconteciam muitas coisas por dia naquele lugar, e ela rindo incessantemente. Também nunca me esquecerei do dia em que ela trouxe um paquerinha pra casa e eu segurava muito a risada ao ver a enorme cavalheirice dela, pois ele ficava deitado ocupando todo o colchãozinho de ar dela, com arzinho do meu próprio pulmão lá dentro também, e ela deitadinha no chão, usando o cantinho do colchão como travesseirinho, além de não reclamar que ele roncava!!! Olha que coisa mais linda!! Lari era meu tempero bahiano nos EUA, e não parava por ai!

Lari (lari ê, ô ô ô – quando lembro delas, fico musical!) gostava muitodas nights americanas, ir no Sandbar e outros barzinhos após o expediente. O melhor era ver o ritual de preparação para sair. Primeiro, aquele banho, a casa toda ficava cheirosinha. Depois, secar o cabelo bem secadinho, porque lá fora o cabelo congela. Sim, CONGELA. Se você bater o cabelo congelado em alguma coisa, como um poste, ele quebra, e a pessoa sai de casa evangélica e volta protestante com cabelinho channel. Depois disso e de escolher a roupa, que nem precisa escolher muito porque são tantas roupas de frio que não se vê nenhum decote, finalmente a coisa mais importante: a BOTA! Ela tinha uma boa que quando ela vestia, praticamente dizia “é hora de morfar!” e botava no pé. Transformava a Lari boazinha na Lari “Poderosa”, que voltava das festas sem dedos suficientes nas mãos, nem com o efeito da multiplicação causado pela ingestão de alcoólicos, podiam contas os fãs e as traquinagens que a safadinha aprontava, tudo sem perder o rebolado nem o bom senso. Nessas noites eu que virava ouvinte! Mas essas histórias eu precisaria de permissão prévia de direitos da moçoila para contar aqui.

Enfim, esse é um mega resumo de uma época em que eu poderia escrever um blog inteiro sobre, mas só pra ficar marcadinho e registrado na sessão Replay, além de dar uma pista de onde vem algumas das experiências que eu escrevo aqui. Finalizando, em poucos meses conheci essas duas figuras que hoje em dia me fazem gastar muito dinheiro!! Por quê? Para juntar milhas com o cartão de crédito, voar até elas, comprar a bota e a câmera fotográfica e fazer uma season do nosso seriado pessoal no Brasil, o nosso próprio “Full House”! Amo-as!

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