O “humilde e solitário”

Um dia desses encontrei na rua um conhecido, desses que a gente vê de vez em quando, e quando vê, conta tudo o que aconteceu nos últimos seis meses que não nos vimos. Resumindo os grandes bate-papos antes desse reencontro num cruzamento da Avenida Paulista, ele tinha saído de um relacionamento abusivo, onde a moça o tratava como um trapo e que ele deveria se sentir honrado por respirar o mesmo ar que ela, entre outras coisas. Ela conseguiu bolsa de estudos em uma universidade da Europa e ele estava se matando pra estudar francês e seguir a dona Nariz Empinée, já que ela não o tratava bem, mas também não ficava sem o coitado. O fim do caso foi algo bem complicado, com direito a lágrimas e essas coisas que mudam de nome, como “estou triste” que vira "tenho depressão”, “não estou afim de comer” significa “estou com distúrbios alimentares” e “ando pensando muito nisso tudo, assim não consigo dormir” que se torna “estou com insônia crônica letal e terei que tomar os mesmos remédios que o Michael Jackson tomou antes de morrer”. Porém, quando o vi na rua, essa fase já tinha passado, e ele estava em uma nova fase, totalmente diferente.

 

Segundo ele, a fase de abandono e dó de si mesmo durou cerca de um mês. Não durou mais porque ele não resistiu, pois, como ele mesmo disse, ao passar pelos lugares, todas as meninas o olhavam, ou seja, ele não tinha paz. Passeava pelo shopping, as moças o seguiam com os olhos escada rolante acima; se entrava em uma loja para comprar alguma coisa, as vendedoras davam em cima dele; nem mesmo no elevador ele tinha sossego, pois era panorâmico e elas acompanhavam o belo pelo vidro fumê. Portanto, devido a tanta exigência, ele se disponibilizou novamente no mercado. Mas não parou por ai…

 

Na última semana antes do final do namoro, ele tinha me contado que tinha medo de ficar sozinho, que hoje as pessoas não querem relacionamento, que achava que com ela daria certo, entre outras coisas. Quando o encontrei dessa vez, a situação inverteu. Ele tinha não uma, não duas, mas três, TRÊS namoradas. Não só tinha como ele ainda bolou todo um esquema para manter as moçoilas distraídas. Uma era comissária de bordo, ou seja, enquanto a bonita estava no céu trabalhando, ele estava na terra aprontando. A outra então, coitada, ficava esperando ele no Rio de Janeiro, enquanto ele estava na cidade da garoa, e com certeza não estava passando frio sozinho.

 

Como se ainda não bastasse o ex-solitário ter uma pretendente para cada momento ou lugar, ainda tem a maneira que ele trata as vítimas. Primeiro ele disse que “parece que essas engraçadinhas combinam, é tudo sincronizado!! Uma me liga, eu atendo, falo com ela, na hora de desligar, ponho o telefone no gancho e já toca de novo!! É a outra!” É mole? Não contente, ainda viria mais. Uma delas sempre chama ele de lindo. É “tudo bem, lindo?” pra cá, “vamos lá, lindo?” pra lá, essas coisas. Daí ele me diz (pasmem!): “Eu não aguento mais ela me chamando de “lindo” o tempo todo! Eu SEI que eu sou lindo, não precisa ficar repetindo!! Agora eu não consigo ficar chamando ela de linda! Acho muito falso! Não consigo mentir!” A situação só ficou pior o dia que, para evitar o “linda” ele a chamou de “querida”, e para ela, isso tinha uma conotação terrível, carregada de cinismo. Foram horas de DR. Difícil entender essa gente.

 

No final, o humilde solitário atravessou a rua comigo pois ia pegar um ônibus para subir a rua da Consolação e chegar até a casa da namorada número 2, acho. Nos despedimos e eu subi em um que descia a mesma rua, esperando sinceramente que ele nunca confunda os nomes das mocinhas, senão o o mau olhado vai ser tão forte, ou o mau agouro tão intenso, que ele será atropelado fatalmente assim que atravessar a primeira rua ao sair de casa.

Comments
3 Responses to “O “humilde e solitário””
  1. kemi disse:

    Noooossa! Será que cada moças tb não possuem três romances ao mesmo tempo..Isso se tornaria uma árvore confulogica!Ou sinto uma ponta de invejinha….! vc como amigo do cara, mande instalar um sinal, com faixa de pedestre pra ele não ser atropelado!! Adoro seus textos! Falei que leria…Bjão

  2. Vera disse:

    Hum… ainda bem que não sou nenhuma delas! Se fosse à um ano atrás, diria que faço parte do time das enganadas! Hoje não!!! Ferbes… mvc precisa arrumar três relacionamentos diferentes… deve ser divertido! Além do mais, a sensação de perigo torna tudo mais bacana! Bjão

  3. Mario F. disse:

    BRAVO Fernando, j\’ai presque tout compris grâce à la traduction de Babel Fish de Yahoo. Tu as du talent pour les descriptions psychologiques! À quand ta 1ère "novella" à la télé nationale du Brésil ???? Gros bisous du QUÉBEC, lieu où l\’on aime tellement les beaux et intelligents Brésiliens! xox

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