Um caso para a vigilância sanitária

Certo dia eu estava trabalhando como um cidadão exemplar, super sério e compenetrado contando piadinhas e casos engraçados para Cicí (Cíntia), Cleclê (Cleide) e Kaká (Karina). Deu meio dia e começamos a cantar “eu vou… eu vou… almoçar agora eu vou…”, descemos as escadinhas em fila indiana e fomos ao restaurante ao lado do escritório. Sentamo-nos todos bonitinhamente e pedimos em unissono o prato do dia: “virado à paulista”. As refeições deste estabelecimento eram cuidadosamente selecionadas e planejadas para atender um público específico, que pelos exemplos que eu tive lá, eu imagino que seja uma clientela de caminhoneiros que não comem há uns três dias ou mais, de tão grandes que eram as porções. O “mini espeto”, por exemplo, vinha umas vinte carnes, um saco de arroz inteiro cozido e mais salada que a refeição mensal de uma modelo famosa. Enfim, ao almoçar lá, eu chegava em casa, ligava a TV, via o telejornal e me sentia culpado pela fome que há nas outras partes do país depois de ter comido por umas cinco pessoas.

 

Enfim, estavamos em um grupinho de seis pessoas, já que mais dois se juntaram ao grupo, e pedimos três pratos do famoso virado. Vieram gigantes enormes gigantescos pratos, só os três cobriram as três mesas inteiras e mal dava espaço para a garrafa de refrigerante (detalhe, pedimos uma soda de dois litros. Mas é só um detalhe mesmo). Comemos até ficarmos tristes, e ao final do almoço ainda sobrou comida para mais umas três pessoas almoçarem.

 

Até o atual momento, nada demais havia acontecido. Voltamos, trabalhamos (há controvérsias), fomos embora às seis horas (também há controvérsias). Sete horas eu estava todo Cinderelo na sala de aula, conversando com a turma, fazendo gracinha pros outros, entre outras atividades rotineiras. Eis que de repente, uma coisa criou vida dentro de mim. Era uma situação difícil de explicar, tipo um gremilim que criou vida dentro de mim e queria sair de qualquer maneira. Afundei na cadeira naquele momento, era como se de repente, se eu relaxasse ali, eu estouraria feito uma bomba de gás. Aquela sensação de que toda a massa que existia dentro do meu corpo se concentrava alí na portinha era terrível, ainda tive que aguentar aquela situação por mais uns quarenta minutos antes da aula acabar. Assim que acabou eu era o primeiro da fila do elevador e só não sai correndo mais visivelmente porque não queria alarmar a polícia ou bombeiros que estivessem alí perto, que poderiam achar que eu assaltei alguma coisa por ali.

 

Corri para o ponto de ônibus. Após os cinco minutos de espera mais longos da minha vida, chegou o bendito, e eu e mais dois colegas de sala entramos. Eles até tentavam puxar assuntoe  tal, mas com um alien se procriando e crescendo dentro da minha barriga, prestes a sair, eu não conseguia dar mais que respostas monossilábicas. Eu tremia e suava frio, toda vez que ouvia um “brobrobrobrobrobrommm” dentro da minha barriga eu queria pular daquele ônibus quebrando a janela. Por que é que aquilo tinha que parar em toda merda de sinal vermelho?? E por que os táxis malditos tinham que parar na frente?? Tinha mais é que passar por cima daquele bando de filho da puta folgado do inferno!! Eu NECESSITAVA chegar em casa urgentemente, tava quase tirando o motorista de lá e conduzindo aquela porcaria. Cheguei ao ponto e desci, a umas 4 quadras de casa.

 

No caminho eu até pensei em utilizar o banheiro dos bares que eu passava, mas existia o risco de eu não conseguir sair de lá antes do bar fechar (já era de horas da noite), além do que, eram perto de casa, vai que a fama se espalha. Apertei o passo e segui em frente. Só não corri porque abriria muito a perna no processo, e esse tipo de coisa é igual maloqueiro da FEBEM, você dá uma folguinha, escapa!

 

Não é necessário dizer que todos os semáforos do caminho estavam fechados, sempre tinha um motoqueiro maldito ou carro de um desavisado que passava no vermelho, e que tudo que era possível para me atrasar acontecia. Ah, o porteiro demorou pra me reconhecer e abrir o portão, o elevador também demorou pra vir porque deveriam estar os dois no 20º andar, etc. Cheguei em casa, meu gato veio miando me cumprimentar e não tive tempo de dar oi, corri para o banheiro e lá eu parecia uma plataforma da Petrobrás, só petróleo e gás natural. Terrível. Se Lula visse aquilo, no dia seguinte ia ter uma plataforma de pré-sal colocada no meu banheiro.

 

No dia seguinte (que eu não sei exatamente quando começou, já que a cada dez minutos eu voltava pro trono), já uns cinco quilos mais magro e desidratado, praticamente o vencedor do programa Etiópia’s Next Top Model, eu ia ligar para o trabalho para dizer que não estava em condições humanas de comparecer quando de repente, o telefone toca… Era Kaká, uma das que também ingeriu o famigerado Virado à Paulista. A primeira coisa que ela me perguntou foi “você passou mal esta noite?”. Se fosse algum daqueles 0800 dizendo que adivinha tudo, depois dessa frase, eu acreditaria em tudo o que a pessoa dissesse. Perguntei como ela adivinho aquilo em poucos segundos ao ouvir minha voz fraca e trêmula, e ela “todo mundo que comeu aquilo passou mal”. Pronto, parecia cena de filme tipo premonição: cada um iria passar mal e defecar até a morte na ordem em que pediram o prato. Nisso ela foi descrevendo cada fato: “Cicí estava na faculdade quando de repente sentiu como se estivesse no nono mês de gravidez e o bebê fosse nascer AGORA… Cleclê passou mal, teve dores de cabeça e depois percebeu que o problema não eram porcarias na cabeça dela, e sim no intestino, assim correu para o banheiro e saiu tanta coisa, mas tanta coisa que ficou toda dolorida e até chegou a verificar se seu ânus ainda estava no lugar, porque depois de tudo aquilo ela já acreditava que ele tinha ido descarga abaixo também… O restante também teve seu momento de apocalipse e arrependimento por ceder às tentações de um virado a paulista. Ningué se salvou sem algum remediozinho que fosse.

 

No dia seguinte ao holocausto, todos com aquela cara de velório após uma noite na qual nossa auto-estima ficou profundamente marcada, o restaurante o lado estava vazio. Diz a lenda que até mesmo alguns funcionários que almoçaram aquilo (ou comeram alguma sobra que não deveriam comer…) passaram mal. Sem saber se a vigilância sanitária estava ciente, nunca mais arriscamos comer um único brigadeiro naquele estabelecimento, e todos viveram felizes para sempre.

 

Moral da história: antes um Mc Donalds que você sabe que faz mal que um restaurante que parece mais saudável, mas que você não faz ideia da procedência dos alimentos.

 

Em memória de todas as pessoas que comeram naquele dia e hoje são acionistas oficiais Lactopurga.

Comments
2 Responses to “Um caso para a vigilância sanitária”
  1. Fiorina disse:

    Huhauahuahuahau… coitados… imagino mesmo. Só deixo um depoimento pra dizer que super concordo com a frase "antes um Mc Donalds que você sabe que faz mal que um restaurante que parece mais saudável, mas que você não faz ideia da procedência dos alimentos".Eu sempre adorei o restaurante Viena, comida boa e até saudável… saladinhas, carnes grelhadas… Faz um ano mais ou menos que jantei no Viena do shopping Paulista… Não deu uma hora eu estava correndo pelo shopping tapando a boca com as mãos (literalmente!) pra não colocar o jantar para fora ali no meio de tudo e de todos!!! Fora a noite inteira de rainha depois e a sensação de estar passando tão mal que parecia que eu ia morrer…Ninguém merece isso, pq aquela batata com funghi do Viena é a melhor do mundo, mas nunca mais como naquele lugar! E em nehum outro Viena tbm, tamanho o trauma! Tá louco! kkkk

  2. Vera disse:

    kkkkkkkkkk….Morri de rir!!! hahahahaha… ADOOOOOOOORO Mc!!!

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