Eu e a máquina de lavar.

Assim que minha máquina de lavar chegou em casa fiquei em polvorosa e muita gente não entendeu o porquê, até me fizeram perguntas sobre isso no meu Formspring (http://www.formspring.me/jekylhyde) e apesar de ter respondido inúmeras vezes, acho que faltou um embasamento histórico-social para que todos entendessem minha fascinação por aquela coisa gordinha e barulhenta.

Por isso acho digno fazer essa sessão de regressão para explicar. Quando eu tinha cinco anos eu estava na frente de casa vendo a empregada lavar a calçada com a mangueira, empurrando as folhinhas secas no chão com a água. Como toda criança boba de cinco anos, pedi permissão para tentar aniquilar todas aquelas folhas malvadas que sujavam a super calçada de casa. E lá fui eu, o defensor da casa, com aquela arma de água na mão (mangueira) apertando a ponta com o dedinho pra poder fazer sair o jato de água mais forte do mundo, empurrando folha por folha com tanta vontade que eu praticamente removeria o cimento da calçada. Dois metros depois, a empregada chega do meu lado, dá um sorrizinho, tira a mangueira da minha mão, volta os dois metros e resmunga "homem não serve pra isso mesmo…", empurrando novamente as folhinhas no mesmo percurso que eu havia percorrido. Foi a partir deste momento que eu percebi que teria que estudar muito, mas muito mesmo, porque eu aprendi que não poderia casar com o discurso de "casa, comida e roupa lavada", pois pra limpar a casa, fazer comida e lavar roupa eu seria um zero à esquerda. Diferentemente das pessoas que se traumatizam facilmente, simplesmente esqueci desta passagem trágica e me dediquei a aprender outras coisas.

O problema é que o tempo passa. Vim morar em São Paulo e com o tempo vi que algumas destas tarefas caseiras acabariam ficando sob minha responsabilidade. A diarista vem duas vezes por semana, o restaurante abre durante a semana toda, os amigos que dividem apartamento comigo fazem uma coisa ou outra, mas é claro que o destino sempre reserva alguns dias em que todos estes personagens estarão ausentes para que VOCÊ tenha que fazer tudo sozinho. Nestas ocasiões aprendi a fazer um macarrão (usando molho pronto), fritar um ovo (que de vez em quando ainda erro), entre outras coisas. Mas e lavar roupa? Não dá. Não adianta nem tentar me explicar, já tentei, já peguei uma camisa na mão e fiquei esfregando e passando sabão, mas 20 anos depois do acontecimento da calçada, ainda tiram estas coisas da minha mão e soltam a frase "homem não serve pra isso mesmo…". Tenho a mão torta quando o assunto é afazeres domésticos.

Porém, como admirador eterno da tecnologia, ela não me deixou na mão. Dia após dia, produtos específicos para coisas que "homens não servem para isso mesmo…" são lançados. Prova disso é o microondas e a comida congelada, forninhos elétricos, fogão com acendedor automático, sistema de segurança e funções que fazem muita coisa por você. Só faltava algo para sanar essa necessidade de lavar aquela blusa listrada que eu adoro, e que ao ir na pizzaria é CLARO que o molho de tomate mira pra cair com precisão cirúrgica no meio da listra branca. E aí? Espero três dias até a mancha sedimentar e a diarista me dizer que não há mais nada a fazer? Ou pior, para ela mergulhar na água sanitária, como ela faz com tudo, e a camisa com listras sair completamente branca do balde? JÁ CHEGA! Eu precisava tomar uma atitude urgente.

Com a finalidade de solucionar esse problema em minha vida, corri para uma loja de móveis, eletrodomésticos e aquele monte de coisas que as pessoas parcelam em 200 vezes e aproveitei a redução do IPI para investir em uma máquina de lavar com capacidade para 10 quilos. A escolha pela máquina de 10 kg é que se eu quisesse lavar até meu gato eu conseguiria, pois não sou bom em "adivinhar o peso das coisas" antes de jogar na máquina. Alguns dias depois,  a branquinha chega e é devidamente instalada na área de serviço. Como bom novato, li o manual de instruções inteiro para saber sobre todas as responsabilidades das quais sou incapaz de cumprir e que a máquina me ajudaria a resolver. No dia seguinte comecei as experiências.

Com o fim do inverno, o que não me faltavam eram coisas para poder lavar e testar todas as funções da minha nova aquisição. Lavei: toalha, camiseta, edredon, cobertor, lençol, fronha, travesseiro (JURO!), jeans, enfim, só não lavei o gato porque ele não quis ficar dentro da cesta da máquina, ele pulava pra fora. Engraçado foi ver como a água do lençol de uma visita que dormiu em casa (a tampa da máquina é de vidro) saiu preta. Não sei como ela sujou tanto um lençol em apenas 7 dias. O importante é que eu jogava as coisas na máquina, ligava o botão, assistia alguns minutos da lavagem como criança com um brinquedo novo, ia pra sala esperar o restante do ciclo de lavagem fazendo qualquer outra coisa (e voltando pra supervisionar a máquina), depois jogava tudo no varal do lado e deixava pra diarista passar. Bem assim: simples, divertido, mágico. Caiu molho na blusa? Ha! Jogo na máquina e pronto! Nem as roupas de cama precisam esperar alguns dias até que se juntem em uma quantidade decente pra levar para a lavanderia, é só jogar e escolher seu ciclo específico, o "roupa de cama". É lindo. Ainda fui na Tok Stock e comprei bolinhas coloridas que você joga na máquina e durante a lavagem, elas raspam nos tecidos e retiram as bolinhas que se formam. Se funcionam eu não sei, acho que sim pois vi algumas bolinhas de tecido grudadas nelas, mas o caso é que é divertido jogá-las na água e vê-las sendo jogadas pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá…

Incrível como parece que essa máquina foi feita pra mim. Com um menú super "para leigos", existem ciclos específicos para cada coisa. Tem desde o "normal" até os ciclos calça jeans, roupa de cama, edredon, uma seção específica para "roupas delicadas" como lã, seda e moletons (tipo o meu listrado), limpeza pesada, roupa íntima, etc. Só faltava ter um menú touch e joguinhos na tela enquanto se espera o ciclo terminar. Também tem várias luzinhas indicando o momento exato do ciclo que ela está, ou então eu não saberia diferenciar o "agitação" do "exágue", ou mesmo quando ela deixa tudo "de molho", que eu acharia que está desligada. Só conheço mesmo a centrifugação, e essa merece um parágrafo a parte.

A parte específica do ciclo chamada "centrifugação" é uma arma em minhas mãos. Quase um instrumento de vingança, por vários motivos. Primeiro porque parece que as roupas se sujam de propósito. Se você jogar ketchup numa camisa velha, parece que ele desvia. Agora vista uma camisa Armani branca e passe de fininho perto do vidro de ketchup pra você ver! Ela ATRAI aquele molho maldito. Um ventinho proveniente dos Campos Elíseos do submundo entra pela janela, derruba o vidro de ketchup e uma gota realiza um movimento parecido com aqueles de bala de revolver em filmes de ação, que vem em câmera lenta até sua camisa e pronto, fim da história. Isso é justo? Por que a camisa branca não pode refletir um raio de luz que atinge a gota e a faz ressecar antes de estragar meu investimento em trajes mais caros? Mas não, ela faz de propósito. É um complô. Por isso, o primeiro significado da vingança da centrifugação é ver a camisa girar, girar e girar, isso porque minha máquina ainda para por alguns momentos, quando olho para a roupa e ela parece dizer "não!!! Por favor!!! Juro que nunca mais faço iss…" e zum zum zum zummmm zummmm zummmmmmm zummmmmmmmmmmmm! Começa a rodar de novo! Ha! Bem feito! Vingança é um prato que se come sentado na tábua de passar, assistindo a máquina de lavar centrifugar.

O segundo significado da vingança são os vizinhos. A vizinha de cima é uma idosa que parece que guarda um pote com cem bolinhas de gude pra derrubar no chão, bem em cima de onde fica meu quarto, pra eu ouvir as bolinhas quicarem e não conseguir dormir. Uma vez visitei o apartamento quando estava exposto à venda, conheci a velhinha e vi a tal "sala", que fica em cima do meu quarto. Procurei mas não achei o tal vidro com bolinhas de gude, certeza que ela o escondeu, mas ela dormia no quarto ao lado e por não ter nenhum animalzinho de estimação, estou certo de que ela derruba aquelas bolinhas de propósito nas madrugadas. Já o vizinho de baixo sempre dá festas. Não seria problema se eles não ficassem fumando na sacada e a cigarreira viesse parar na janela do meu quarto. Como todo bom não-fumante, aquele cheiro de cigarro impregnado em casa me deixa com vontade de invocar um meteoro pra cair bem na cabeça daqueles indivíduos, mas depois que comprei a máquina de lavar, minha vida mudou! A cada semana, ao trocar a roupa de cama, guardo o lençol e espero dar meia noite ou quase uma da manhã. Chegando esse horário, jogo aquela peça única na máquina, ligo no modo "roupa de cama", aperto todos os botões, que são "super agitação" pra agitar mais forte e com mais barulho, "duplo enxágue", que é auto-explicativo, e "molho dinâmico amaciante", que ela enche mais uma vez e deixa de molho no amaciante, daí enxágua mais uma vez antes de centrifugar. No modo de roupa de cama ela centrifuga três vezes. TRÊS. E a área de serviço fica do lado do quarto da velha de cima e do xarope de baixo. Imagino eles se remexendo no colchão sem dormir, no mesmo ritmo que a máquina se mexe e remexe pra centrifugar. É praticamente música para meus ouvidos! Quando os vejo no elevador no dia seguinte, ainda dou um "bom diaaaa!" com o sorriso mais lindo do mundo, pois pelo menos EU dormi maravilhosamente bem.

Por esses e por outros motivos eu adoro minha máquina de lavar. É algo que soluciona minha vida, acaba com minhas frustrações e ainda é uma arma para me vingar dos vizinhos, só faltava ela passar a roupa ao terminar de lavar. Tem coisa melhor? Por isso até hoje lembro bem uma frase de um ilustre professor na faculdade, que dizia: "Cada coisa possui um determinado valor para cada pessoa". Pois é, minha máquina de lavar, pelo menos por enquanto, para mim vale OURO.

Comments
9 Responses to “Eu e a máquina de lavar.”
  1. Wagner disse:

    Consegui ver o brilho dos seus olhos enquanto judiava dos seus vizinhos malvados. Especialmente do fumante, que particularmente me desperta ódio mortal. Mas veja bem, não entenda isso como uma ameaça (a), mas espero não ter mais notícias sobre uma máquina de 10kg sendo acionada para lavar "UM" lençol, em programa de lavagem dupla com tripla centrifugação. Cadê a consciência ambiental? Deixa o Greenpeace ou WWF descobrirem isso. hunf. #prontofalei

  2. Jekyl disse:

    @Wagner (sem nome), eu uso o nível de água mais baixo e lavo o máximo possivel pra economizar água. Hahahahahha

  3. Ana Paula disse:

    Como é possível que uma pessoa escreva bem sobre todos os assuntos? Basta colocar uma palavra em sua folha que a imaginação vai longe, não é mesmo? vc sabe, somos unidos pela máquina de lavar até o fim! Um beijo querido. Adoro os seus textos! Adoro vc!

  4. Osmira disse:

    Só um Coisa: Amo esse tipo de maldade! Porque não é maldade, é bom-senso! Eita povo chato esses vzinhos do andar de baixo! Sofro com um que jura que eu estava andei de salto alto uma noite dessas.PS: Na noite citada eu estava dopada com um remédio pra enxaqueca com a promessa de 10 (sim, DEZ) horas seguidas de sono!PS2: SEM COMENTÁRIOS ADICIONAIS! hehehe

  5. Fiorina disse:

    HahahahahSempre ótimo, né! Haja criatividade!Bjão

  6. Rodrigo disse:

    Agora tenho medo de dormir em sua casa e depois receber a cor do meu lençol via post, rs. Logo precisarei comprar uma pra mim! Embora seja apenas uma máquina de lavar roupas, o sabor dado ao textos com ênfase, diverte quem o lê. Besos! Rodrigo

  7. Bruna disse:

    olha… minha mae faz exatamente a mesma coisa pra se vingar dos vizinhos… sempre achei uma maravilha!

  8. Mario F. disse:

    J\’ai rien compris mais je suis totalement d\’accord avec toi … xddddd Bjao, fr. Mario xox

  9. Ezra reder disse:

    Oi…Adorei a saga…rsss

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