Carinho, carência e sofás.

Uma bela
noite fresca, eu e uma amiga estávamos no salão(zinho) de festas do prédio dela,
porque seu apartamento estava uma verdadeira zona de tanta coisa jogada e ela
não queria que eu visse seu quarto bagunçado, já que minha vida se dividiria em
“AQ” e “DQ”: “Antes do Quarto” e “Depois do Quarto”, segundo ela. Lá começamos
a falar de várias coisas, daí entramos nos assuntos pessoais e nas dificuldades
de achar a pessoa certa (ou quase certa).

 

Comparamos
a pessoa certa com um “sofá ideal”, ou seja, aquele com material e conforto que
você quer. Algumas pessoas precisam sentar e experimentar vários sofás antes de
decidir qual é o ideal para levar pra casa. Outras, assim que se sentam, já
sabem que é aquele. Há ainda outros que sentam em um sofá, gostam, mas não
querem sair da loja antes de experimentar TODOS os sofás do local, e o que
geralmente acontece é que quando voltam ao modelo que agradou, este, já
paradinho ali por algum tempo, acabou sendo vendido e não adianta chorar pelo
leite derramado. Também existem alguns doidos que sentam em um sofá, JURAM que
aquele sofá foi feito especialmente pra eles e nada no planeta Terra mudará
esta opinião, e na maioria dos casos, nem os próprios sofás agüentam o peso do
bundão. É sempre assim, um paradoxo de opiniões.

 

Bom, eu e a
amiga, no caso, parecemos (ou acreditamos) ser mais normais que esses casos.
Nem acomodados para não sentar em nenhum sofá, nem hiperativos pra querer
experimentar todos, ou seja, somos “moderados”. O problema é que depois que
você entra na loja de móveis (quando você começa a namorar e tal) você não sai
mais até encontrar o sofá ideal. Quando você é criança, você só é criança,
depois tudo se divide em “estou solteiro” e “estou compromissado”. Uma meleca,
mas é assim que acontece e não adianta negar.

 

O negócio
que pega é aquele esquema de “quem eu quero não me quer”. Talvez o problema
maior nem seja o “não me quer”, mas sim o “me quer, mas não agora”, porque isso
deixa aquele gancho que você não sai, mas também não engrena de vez. E isso é
irritante, deixa a gente louco e a gente xinga, bloqueia, volta, fala, chama
pra sair, dá bolo ou leva bolo, e por aí vai. Momentos chatos, porém que fazem
o sangue correr mais nas veias, deixa o rosto corado, machuca os dedos do pé e
quebra alguns objetos (durante as crises de revolta) e depois que passa até dá
saudade, mas o “durante” acaba com a nossa vida. O esquema desse “eu te quero,
mas depois” enlouquece porque a pessoa marca você, mas marca de marcar mesmo,
tipo aqueles espetinhos com inicias na ponta que esquentam na brasa e usam pra
marcar os bois: nos aquece, nos machuca e nos marca.

 

A marcação
pode ainda render algumas situações, como momentos melosos, momentos de raiva,
ligações que depois de colocar o telefone no gancho nos perguntamos “o que eu
tinha na cabeça pra falar isso??!!” Minha amiga, por exemplo, chegou ao ponto
de pegar o telefone, ligar para o sofá amado (que hipoteticamente seria o sofá
ideal ou ela achou que ia ser) e pedi-lo em casamento. Imaginem
a cena, você chega em casa e seu celular toca, toca, toca… Você atende e a
primeira coisa que você ouve é “chamada a cobrar. Para aceitá-la continue na
linha após a identificação” (brincadeira, gente!! Começa agora nessa segunda
parte) “você é o homem da minha vida! Casa comigo? Eu to apaixonadaaaa!! Por favorrr!!!”. Conhecendo minha amiga
como eu conheço (sem modéstia ou puxação de saco, linda, charmosa, inteligente,
“pra casar”), seria a coisa mais meiga do planeta, mas a ação corajosa não
rendeu frutos. Claro, seria meigo depois de você desligar e pensar algumas vezes
para tentar entender se aquilo foi verdade ou trote. Mas ela acabou pensando
mais um pouco e achou que preferia um sofá de uma coleção mais nova, já que
esse do caso era um tanto “vintage”, e acabou mudando de idéia. O problema,
tanto dela como de qualquer outro, é que o mercado de sofás anda tão instável e
os consumidores andam tão exigentes que é difícil achar um sofá pra você em
meio a tantos, daí acabamos escolhendo um que é por encomenda e estes demoram
muito mais para chegar no conforto da nossa casa.

 

Começamos a
comparar essas pessoas marcantes de “sofás”, porque é isso que elas deveriam
ser, por vários motivos:

 

1)     
Deveriam
estar a venda. A gente entra, escolhe, paga e ele vem! Nada de pensar, refletir
ou reclamar.

2)     
Deveriam
ficar onde quiséssemos, paradinhos ali na sala pra você sentar do lado a hora
que quer.

3)     
Deveriam
se adaptar a nós e não causar problema, igual o sofá se molda conforme a bunda
sentante.

4)     
Deveriam
ser fixos.

5)     
Deveriam
permitir que os mandássemos pro conserto e recebermos de volta uma semana
depois, novinho.

6)     
Deviam
poder ser arrastados pra onde quiséssemos.

7)     
Deveriam
ser NOSSOS.

 

Mas não é
bem assim que acontece. Na hora de marcar esses sofás xaropes de volta, eles
ainda querem fazer bumbum doce e fingem não deixar, numa pseudo-liberdade
criada por eles. Quando estamos enganchados eles também estão, embora façam
toda essa carinha de “não temos nada”. Em suma, você está marcado como um boi,
daí você pega o seu espetinho e vai lá queimar o seu sofá especial e ele toma o
espetinho da sua mão e diz “nemmm ferrando!! Você não vai me marcar!” viram o
espetinho pra dentro, se queimam eles mesmos e devolvem, ainda fazendo aquela
carinha de “humpf! Viu? Eu que mando!” Independentemente da ordem, o resultado
é o mesmo.

 

É estranho
pensar que essas pessoas vão tirar noites de sono mais cedo e estarão do lado
fazendo a gente dormir mais tarde. Isso se ainda não for o nosso sofá ideal,
onde toda a briga virará história de filme, um DVD com as cenas do casamento e
uma vivência junta até os últimos momentos. Pensar nisso as vezes dá até um
aperto.

 

Enfim, esse
é um assunto que vai longe, mas queria registrar como conseguimos comprar móveis
a uma situação tão pessoal, ainda mais discutindo como somos complicados e como
complicamos o que nem sempre é tão difícil. Mas um dia eu resolvo isso. Ou eu
caso ou eu abro uma movelaria e pronto.

Comments
One Response to “Carinho, carência e sofás.”
  1. Aline disse:

    vou fazer um comentário tosco. A minha familia por parte de pai é moveleira.. mas nao me lembro se fazemos sofás.. e o Heitor, também tem uma fábrica de cadeiras de escritório.. huaihahiauihaiuia.. moveis me perseguem… q medo. E eu estou com um sofá q muda muito de lugar, humor, opinião. Mudo até de continente por ele e ele vem com a hst de q nao me qr agora T-T. talvez o problema seja eu.. ahueauihehiahehi

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